domingo, 22 de março de 2015

É POSSÍVEL AOS ESPÍRITOS LER OS NOSSOS PENSAMENTOS MAIS RECÔNDITOS?




A Gênese

Allan Kardec

(Parte 45)





Damos continuidade ao estudo metódico do livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, cuja primeira edição foi publicada em 6 de janeiro de 1868. As respostas às questões sugeridas para debate encontram-se no final do presente texto.
Questões para debate


A. O pensamento pode refletir-se no envoltório perispirítico, como se aí ele se fotografasse?

B. É a partir desse fato que é possível aos Espíritos ler os nossos pensamentos mais recônditos?

C. Os fluidos possuem qualidades peculiares a eles mesmos?
Texto para leitura

879. Paralítico – Após curar um paralítico, Jesus lhe disse: Meu filho, tem confiança; perdoados te são os teus pecados. Logo alguns escribas disseram entre si: Este homem blasfema. Jesus, tendo percebido o que eles pensavam, perguntou-lhes: Por que alimentais maus pensamentos em vossos corações? Pois, que é mais fácil dizer: Teus pecados te são perdoados ou Levanta-te e anda?

880. Em seguida, o paralítico se levantou imediatamente e foi para sua casa. E o povo, tendo visto aquele milagre, se encheu de temor e rendeu graças a Deus, por haver concedido tal poder aos homens. (Cf. Evangelho de Mateus, cap. IX, 1-8.)

881. Que significariam aquelas palavras: «Teus pecados te são perdoados» e em que podiam elas influir para a cura? O Espiritismo lhes dá a explicação, como a uma infinidade de outras palavras incompreendidas até hoje. Por meio da pluralidade das existências, ele ensina que os males e aflições da vida são muitas vezes expiações do passado e que sofremos na vida presente as consequências das faltas que cometemos em existência anterior, até que tenhamos pago a dívida de nossas imperfeições, pois que as existências são solidárias umas com as outras.

882. Se, portanto, a enfermidade daquele homem era uma expiação do mal que ele praticara, a frase dita por Jesus: «Teus pecados te são perdoados» equivalia a dizer-lhe: «Pagaste a tua dívida; a fé que agora possuis elidiu a causa da tua enfermidade; conseguintemente, mereces ficar livre dela».

883. Os dez leprosos – Um dia, indo Jesus para Jerusalém, dez leprosos vieram ao seu encontro e, conservando-se afastados, clamaram em altas vozes: Jesus, Senhor nosso, tem piedade de nós. Dando com eles, disse-lhes Jesus: Ide mostrar-vos aos sacerdotes. Quando iam a caminho, ficaram curados. Um deles, vendo-se curado, voltou sobre seus passos, glorificando a Deus em altas vozes; e foi lançar-se aos pés de Jesus, com o rosto em terra, a lhe render graças. Tratava-se de um samaritano.

884. Perguntou então Jesus: Não foram curados todos dez? Onde estão os outros nove? Nenhum deles voltou e glorificou a Deus, a não ser este estrangeiro? Em seguida, disse ao samaritano: Levanta-te; vai; tua fé te salvou.(Cf. Evangelho de Lucas, cap. XVII, 11-19.)

885. Os samaritanos eram cismáticos, mais ou menos como os protestantes com relação aos católicos, e os judeus os tinham em desprezo, como heréticos. Curando indistintamente os judeus e os samaritanos, dava Jesus, ao mesmo tempo, uma lição e um exemplo de tolerância; e fazendo ressaltar que só o samaritano voltara a glorificar a Deus, mostrava que havia nele maior soma de verdadeira fé e de reconhecimento, do que nos que se diziam ortodoxos.

886. Acrescentando: «Tua fé te salvou», fez ver que Deus considera o que há no âmago do coração e não a forma exterior da adoração. Entretanto, também os outros tinham sido curados. Fora mister que tal se verificasse, para que ele pudesse dar a lição que tinha em vista e tornar-lhes evidente a ingratidão. Quem sabe, porém, o que daí lhes haja resultado; quem sabe se eles terão se beneficiado da graça que lhes foi concedida? Dizendo ao samaritano: «Tua fé te salvou», dá Jesus a entender que o mesmo não aconteceu aos outros.

887. Mão seca – Certa vez entrou Jesus no templo e aí encontrou um homem que tinha seca uma das mãos. Enquanto os fariseus o observavam para ver se ele o curaria em dia de sábado, Jesus disse ao homem: Levanta-te e coloca-te ali no meio. Depois, disse-lhes: É permitido em dia de sábado fazer o bem ou mal, salvar a vida ou tirá-la? Eles permaneceram em silêncio. Jesus disse então ao homem: Estende a tua mão. Ele a estendeu e ela se tornou sã. Logo os fariseus saíram e se reuniram contra ele em conciliábulo com os herodianos, sobre o meio de o perderem. (Cf. Evangelho de Marcos, cap. III, 1-8.)

888. A mulher curada – Aos sábados Jesus ensinava numa sinagoga. Um dia, viu ali uma mulher possuída de um Espírito que a punha doente fazia 18 anos; era tão curvada, que não podia olhar para cima. Vendo-a, Jesus a chamou e lhe disse: Mulher, estás livre da tua enfermidade. Impôs-lhe ao mesmo tempo as mãos e ela, endireitando-se, rendeu graças a Deus.

889. O chefe da sinagoga, indignado por haver Jesus feito uma cura em dia de sábado, disse ao povo: Há seis dias destinados ao trabalho; vinde nesses dias para serdes curados e não nos dias de sábado. Jesus, porém, tomando a palavra, disse-lhe: Hipócrita, qual de vós não solta da carga o seu boi ou seu jumento em dia de sábado e não o leva a beber? Por que então não se deveria libertar, em dia de sábado, dos laços que a prendiam, esta filha de Abraão, que Satanás conservara atada durante dezoito anos? (Cf. Evangelho de Lucas, cap. XIII, 10-17.)

890. Esse fato prova que naquela época a maior parte das enfermidades era atribuída ao demônio e que todos confundiam, como ainda hoje, os possessos com os doentes, mas em sentido inverso, isto é, hoje, os que não acreditam nos maus Espíritos confundem as obsessões com as moléstias patológicas.

891. O paralítico da piscina – Depois do fato que narramos, havendo chegado a festa dos judeus, Jesus foi a Jerusalém, onde havia uma piscina que se chamava em hebreu Betesda. Ali se achavam deitados, em grande número, doentes, cegos, coxos e os que tinham ressecados os membros, todos à espera de que as águas fossem agitadas, porque, segundo se acreditava, o anjo do Senhor, em certa época, descia àquela piscina e lhe movimentava a água e aquele que fosse o primeiro a entrar nela, depois de ter sido movimentada a água, ficava curado, qualquer que fosse a sua doença.

892. Ali estava naquele dia um homem que se achava doente havia trinta e oito anos. Jesus, tendo-o visto deitado e sabendo-o doente desde longo tempo, perguntou-lhe: Queres ficar curado? O doente respondeu: Senhor, não tenho ninguém que me lance na piscina depois que a água for movimentada; e, durante o tempo que levo para chegar lá, outro desce antes de mim. Disse-lhe então Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e vai-te. No mesmo instante o homem se achou curado e, tomando de seu leito, pôs-se a andar. Ora, aquele dia era um sábado.

893. Disseram então os judeus ao que fora curado: Não te é permitido levares o teu leito. Respondeu o homem: Aquele que me curou disse: Toma o teu leito e anda. Perguntaram-lhe eles: Quem foi esse que te disse: Toma o teu leito e anda? Mas, nem mesmo o que fora curado sabia quem o curara, porquanto Jesus se retirara do meio da multidão que lá estava.

894. Mais tarde, encontrando aquele homem no templo, Jesus lhe disse: Vês que foste curado; não tornes de futuro a pecar, para que te não aconteça coisa pior. O homem foi, então, ter com os judeus e lhes disse que fora Jesus quem o curara.

895. Esse era o motivo que os judeus alegavam para perseguir a Jesus, porque ele fazia essas coisas em dia de sábado. Então, Jesus lhes disse: Meu Pai não cessa de obrar até ao presente e eu também obro incessantemente. (Cf. Evangelho de João, cap. V, 1-17.)

896. Piscina (da palavra latina piscis, peixe), entre os romanos, era o nome dado aos reservatórios ou viveiros onde se criavam peixes. Mais tarde, o termo se tornou extensivo aos tanques destinados a banhos em comum. A piscina de Betesda, em Jerusalém, era uma cisterna, próxima ao Templo, alimentada por uma fonte natural, cuja água parece ter tido propriedades curativas.

897. Era, sem dúvida, uma fonte intermitente que, em certas épocas, jorrava com força, agitando a água. Segundo a crença vulgar, esse era o momento mais propício às curas. Talvez que, na realidade, ao brotar da fonte, mais ativas fossem as propriedades da água, ou que a agitação que o jorro produzia na água fizesse vir à tona a vasa salutar para algumas moléstias. Tais efeitos são muito naturais e perfeitamente conhecidos hoje; mas, então, as ciências estavam pouco adiantadas e à maioria dos fenômenos incompreendidos se atribuíam uma causa sobrenatural.

898. Depois de haver curado aquele paralítico, disse-lhe Jesus: «Para o futuro não tornes a pecar, a fim de que não te aconteça coisa pior». Por essas palavras, deu-lhe a entender que a sua doença era uma punição e que, se ele não se melhorasse, poderia vir a ser de novo punido e com mais rigor, doutrina essa inteiramente conforme à do Espiritismo.

899. Jesus parece que fazia questão de operar suas curas em dia de sábado, para ter ensejo de protestar contra o rigorismo dos fariseus no tocante à guarda desse dia. Queria mostrar-lhes que a verdadeira piedade não consiste na observância das práticas exteriores e das formalidades; que a piedade está nos sentimentos do coração. Justificava-se, declarando: «Meu Pai não cessa de obrar até ao presente e eu também obro incessantemente». Quer dizer: Deus não interrompe suas obras, nem sua ação sobre as coisas da Natureza, em dia de sábado. Ele não deixa de fazer que se produza tudo quanto é necessário à vossa alimentação e à vossa saúde; eu lhe sigo o exemplo.

900. Cego de nascença – Ao passar, viu Jesus um homem que era cego desde que nascera e seus discípulos lhe fizeram esta pergunta: Mestre, foi pecado desse homem, ou dos que o puseram no mundo, que deu causa a que ele nascesse cego? Jesus lhes respondeu: Não é por pecado dele, nem dos que o puseram no mundo; mas, para que nele se patenteiem as obras do poder de Deus. É preciso que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; vem depois a noite, na qual ninguém pode fazer obras. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.

901. Tendo dito isso, cuspiu no chão e, havendo feito lama com a sua saliva, ungiu com essa lama os olhos do cego e lhe disse: Vai lavar-te na piscina de Siloé, que significa Enviado. Ele foi, lavou-se e voltou vendo claro. Seus vizinhos e os que o viam antes a pedir esmolas diziam: Não é este o que estava assentado e pedia esmola? Uns respondiam: É ele; outros diziam: Não, é um que se parece com ele. O homem, porém, lhes dizia: Sou eu mesmo. Perguntaram-lhe então: Como se te abriram os olhos? Ele respondeu: Aquele homem que se chama Jesus fez um pouco de lama e passou nos meus olhos, dizendo: Vai à piscina de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me e vejo.

902. A cura também ocorreu num dia de sábado. Os fariseus então o interrogaram para saber como ele recobrara a vista. Ele lhes disse: Ele me pôs lama nos olhos, eu me lavei e vejo. Ao que alguns fariseus retrucaram: Esse homem não é enviado de Deus, pois que não guarda o sábado. Outros, porém, diziam: Como poderia um homem mau fazer prodígios tais? Havia, portanto, dissensão entre eles.

903. Disseram de novo ao que fora cego: E tu, que dizes desse homem que te abriu os olhos? Ele respondeu: Digo que é um profeta. Mas os judeus não acreditaram que aquele homem houvesse estado cego e que houvesse recobrado a vista, enquanto não fizeram vir o pai e a mãe dele e os interrogaram assim: É este o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora vê? O pai e a mãe responderam: Sabemos que esse é nosso filho e que nasceu cego; não sabemos, porém, como agora vê e tampouco sabemos quem lhe abriu os olhos. Interrogai-o; ele já tem idade, que responda por si mesmo.

904. Chamaram segunda vez o homem que estivera cego e lhe disseram: Glorifica a Deus; sabemos que esse homem é um pecador. Ele lhes respondeu: Se é um pecador, não sei, tudo o que sei é que estava cego e agora vejo. Tornaram a perguntar-lhe: Que te fez ele e como te abriu os olhos? - Respondeu o homem: Já vo-lo disse e bem o ouvistes; por que quereis ouvi-lo segunda vez? Será que queirais tornar-vos seus discípulos? Ao que eles o carregaram de injúrias e lhe disseram: Sê tu seu discípulo; quanto a nós, somos discípulos de Moisés. Sabemos que Deus falou a Moisés, ao passo que este não sabemos donde saiu.

905. O homem lhes respondeu: É de espantar que não saibais donde ele é e que ele me tenha aberto os olhos. Ora, sabemos que Deus não exalça os pecadores; mas, àquele que o honre e faça a sua vontade, a esse Deus exalça. Desde que o mundo existe, jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. (Cf. Evangelho de João, cap. IX, 1-34.)
Respostas às questões propostas

A. O pensamento pode refletir-se no envoltório perispirítico, como se aí ele se fotografasse?

Sim. Sendo os fluidos o veículo do pensamento, este atua sobre os fluidos como o som sobre o ar; eles nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no envoltório perispirítico, como num espelho; toma nele corpo e aí de certo modo se fotografa. (A Gênese, cap. XIV, item 15.)

B. É a partir desse fato que é possível aos Espíritos ler os nossos pensamentos mais recônditos?

Sim. Conforme dito na questão anterior, os mais secretos movimentos da alma repercutem no envoltório fluídico, o que permite que uma alma leia noutra alma, como num livro, e ver o que não é perceptível aos olhos do corpo. (A Gênese, cap. XIV, item 15.)

C. Os fluidos possuem qualidades peculiares a eles mesmos?

Não. Os fluidos não possuem qualidades sui generis, mas sim as que adquirem no meio onde se elaboram. Modificam-se pelos eflúvios desse meio, como o ar pelas exalações e a água pelos sais das camadas que atravessa. Conforme as circunstâncias, suas qualidades são, como as da água e do ar, temporárias ou permanentes, o que os torna muito especialmente apropriados à produção de determinados efeitos.

Sob o ponto de vista moral, trazem o cunho dos sentimentos de ódio, de inveja, de ciúme, de orgulho, de egoísmo, de violência, de hipocrisia, de bondade, de benevolência, de amor, de caridade, de doçura, etc.

Sob o aspecto físico, são excitantes, calmantes, penetrantes, adstringentes, irritantes, dulcificantes, soporíficos, narcóticos, tóxicos, reparadores; tornam-se força de transmissão, de propulsão, etc. O quadro dos fluidos seria, pois, o de todas as paixões, das virtudes e dos vícios da Humanidade e das propriedades da matéria, correspondentes aos efeitos que eles produzem. (A Gênese, cap. XIV, itens 16 e 17.)