terça-feira, 27 de janeiro de 2015

ESPIRITISMO: COMER CARNE OU SER VEGETARIANO?










Tenho observado muitas discussões no meio espírita, sobre a conveniência de comer carne ou de se adotar uma dieta vegetariana. Confesso que já gostei mais de discussões e debates.

Quase sem querer, me deparei com esse assunto no Fórum espírita. É lastimável ver como todos querem ser donos da razão. Tenho pedido aos meus leitores que se sintam sempre à vontade para manifestar sua discordância a respeito do que eu escrevo. E agora peço algo ainda mais importante: Se você me achar radical, se achar que estou olhando para apenas um lado de determinada questão, por favor, me avise. Como é terrível o radicalismo!

Quando alguém pensa que a verdade está só com ela, quando alguém se nega a analisar qualquer questão sob outro ângulo, toda a boa intenção dessa pessoa vai por água abaixo, todo seu esforço em melhorar-se fica enclausurado nas grades do seu ego.

Eu não como carne. Acho que não devo me alimentar do sofrimento e da morte de um animal, que não deixa de ser um semelhante. Mas já comi carne, e muita. Como bom gaúcho, o churrasco era uma das minhas maiores diversões. Agora, porque resolvi parar de comer carne, não posso condenar sumariamente quem come carne.

Eu não me tornei uma pessoa melhor por não comer carne. Não me tornei mais caridoso, não me tornei mais humilde, não me tornei mais paciente, não me tornei mais compreensivo. Só parei de contribuir para o sofrimento e a morte de alguns animais, e me sinto contente por isso. Só isso. Não me transformei numa pessoa mais elevada. Não adquiri uma envergadura moral superior às demais.

Durante bastante tempo eu achava que não valia a pena parar de comer carne. Um ato tão pequeno, comparado com todas as coisas importantes que eu tinha que fazer para me aprimorar. Que adiantaria parar de comer carne e continuar sendo impaciente e irritável? Que adiantaria parar de comer carne e continuar orgulhoso e egoísta? Tentei primeiro me aprimorar moralmente, deixar de ser impaciente, irritável, orgulhoso e egoísta.

Não consegui. Vou continuar tentando. Não há um só dia em que eu não tente me livrar, cada vez mais, desses defeitos. Mas não consegui ainda. Se não consegui me livrar dos grandes defeitos, por que não tentar me livrar dos pequenos defeitos? Foi o que fiz. Por isso parei de comer carne. Mas em momento algum julguei ter dado um grande passo no caminho espiritual, ter subido um degrau decisivo rumo ao progresso do espírito imortal.

É um milhão de vezes mais importante e meritório um carnívoro paciente e humilde do que um vegetariano como eu. É um milhão de vezes mais importante e meritório um carnívoro solícito, prestativo, compreensivo, de boa vontade, do que um vegetariano como eu. Repito, para que fique claro: Acho que a importância de se parar de comer carne é mínima. Existem centenas, milhares de ações mais importantes e urgentes do que parar de comer carne.

Acontece que o fato de haver coisas mais importantes e urgentes para se fazer em busca do aprimoramento moral, em busca da reforma íntima, não invalida o mérito de parar de comer carne. É um passo pequeno, pequeníssimo, mas é um passo. Acho inconcebível que pessoas cultas, inteligentes, acostumadas ao estudo do espiritismo, fiquem presas à questão 723 do Livro dos Espíritos e agirem como crianças birrentas, repetindo a ladainha: a carne alimenta a carne, a carne alimenta a carne, a carne alimenta a carne. Procurem outro argumento, então!

Da mesma forma que alguns espíritas tomam a defesa ferrenha e irredutível da alimentação carnívora, só porque um espírito em meados do século XIX disse que “a carne alimenta a carne”, do lado oposto, do lado dos vegetarianos, também há radicais que só falta dizerem que os que se alimentam de carne irão queimar no fogo do inferno, que os que se alimentam de carne vão virar churrasco do diabo.

Tenho conhecido pessoas que fazem da defesa dos animais a causa de suas vidas. Ótimo! Parabéns a elas, de verdade! Eu já passei da adolescência há algum tempo e até agora não consegui definir uma causa pra minha vida.

Só que algumas dessas pessoas empenham-se com tanto afinco em seus ideais que se esquecem das qualidades morais que diferenciam os homens dos animais. Deixam de lado a civilidade, a compreensão, a capacidade de convívio e aceitação daqueles que pensam diferente. Nutrem raiva em relação aos que desrespeitam os direitos dos animais.

O mundo não se divide entre comedores de carne e não comedores de carne. Não precisamos ser condescendentes com os erros dos outros, não precisamos passar a mão na cabeça do político corrupto, do furador de fila, do funcionário mal educado, do desrespeitador dos direitos dos animais. Mas raiva também não, né? Eu prefiro comer carne do que sentir raiva de alguém. E você?

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