quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O MENTOR DA CASA:



O Mentor da casa


Alamar Régis Carvalho



Na carona do assunto levantado pelo amigo Alfredo Bastos, vamos desenvolver este assunto que acho muito interessante: O mentor do centro espírita.

Conforme todos sabem, os espíritas falam muito no “Mentor da casa”, aquele ser que para eles émuito importante, é indispensável e concebido como alguém muito especial, que deve sempre ser ouvido, consultado e invariavelmente obedecido em tudo o que sugerir e até em impor e determinar.

Afinal de contas, quem é o mentor do centro espírita que você freqüenta?

Você já procurou se informar acerca disto?

Será que os próprios dirigentes do centro sabem quem ele foi e quem ele é?

Outra pergunta que, certamente, vai mexer com a cabeça daqueles espíritas de superficialidade que se resumem a qualificar simplesmente como polêmico quem tem a coragem de levantar um assunto deste:

Quem elegeu determinado espírito ao cargo de mentor do centro espírita?

Quem determinou que tal espírito fosse o mentor do centro?

Quais foram os critérios adotados para o mesmo ascender à posição?

Tenho certeza de que os espíritas não saberão responder estas perguntas.

É exatamente por isto que quero convidar todos a aprofundarmos neste questionamento.

Mas primeiro vamos relembrar, de novo, como é que se inicia um centro espírita.



A fundação de um centro espírita



Conforme eu abordei noutro artigo que escrevi recentemente, qualquer pessoa pode fundar um centro espírita, já que não há exigências de cumprimento de nenhuma legislação e não há normas e procedimentos fiscais previstos para tal iniciativa.

Se alguém freqüenta um centro espírita mais antigo e, de uma hora para outra, despertar a vontade de criar o seu próprio, percebe que tem uma garagem em casa que não está sendo usada, desperta-se na idéia de que deve fazer dali um centro espírita, porque tem muita gente que mora nas imediação. Decide fazer o centro, faz mesmo, começa a funcionar e não tem preocupação nenhuma quanto ao modelo que deve adotar.

Faz o que quer e bem entende.

É uma pessoa boa? É sim.

É uma pessoa caridosa, que adora dar coisas para os pobres? É sim.

É uma pessoa honesta? É sim.

Ótimo, esses requisitos são interessantes e, por causa deles, o novo centro começa a atrair a freqüência de várias pessoas, que trazem outras, mais outras, mais outras... até que o espaço, inicialmente para apenas quarenta cadeiras, fica insuficiente e... vamos fazer uma campanha para construir a nossa sede própria, com capacidade para mais de trezentas pessoas.

O centro cresce e fica famoso. Daqui a pouco ele já tem vinte, trinta... quarenta anos de existência e, não demora, já estará comemorando os seus cinqüenta anos.

É assim que muitos centros espíritas começam, geralmente a maioria.



O nível de conhecimento dos seus fundadores



Conforme falamos, o fundador da casa pode ser uma pessoa honesta, boa e caridosa. Mas será que esses são requisitos suficientes para a fundação de uma casa espírita?

Tenho eu a impressão de que para isto existe um pré-requisito que deve ser indispensável: O conhecimento do Espiritismo.

Será que todos aqueles que fundam, conduzem e dirigem a maioria dos centros espíritas de fato conhecem o Espiritismo?

É claro, Alamar. Se a pessoa já vem de outro centro, só podemos imaginar que ela conheça o Espiritismo e saiba o que está fazendo.

Será que o fato de alguém freqüentar um centro por algum tempo, inclusive por alguns anos, implica em que necessariamente conheça o Espiritismo?

Não se deixe levar apenas pelas argumentações do Alamar, use a sua própria inteligência, observe bem como se processam as práticas da maioria dos centros espíritas, durante anos e anos, e tire você mesmo a conclusão:

Será que o modelo habitual de procedimento dos centros é capaz de fazer com que alguém aprenda realmente o que é o Espiritismo? Se não há intercâmbio com os espíritos, para atender ao apelo de Kardec, como é possível haver entendimento e avanço no Espiritismo?

A principal atividade da maioria dos centros é a palestra, geralmente feita por alguém da casa ou por convidados. Chamam de “doutrinária” e geralmente essa doutrinária segue um mesmo ritual comum na grande maioria dos centros:

Prece inicial, leitura da uma mensagem de um livro, palestra, passe, água magnetizada e prece final. Tudo igual, como o ritual da missa.

A mediúnica ocorre invariavelmente apenas uma vez por semana, limitada a uma hora, resumida a apenas uma meia dúzia de participantes e objetivando apenas atender espíritos sofredores, revoltados, raivosos e vingativos. Não há espaço de tempo para diálogo com os espíritos amigos e orientadores. Quando há algum espaço com um POUQUINHO de tempo maior, é para a figura do Mentor da Casa.

Reunião de estudos: Podem observar o detalhe que a maioria dessas reuniões (já procuramos apurar isto) destina-se a estudar obras de autoria de alguns espíritos, embora respeitáveis, mas não tem Allan Kardec como prioridade. Em alguns casos tem estudo de “O Livro dos Espíritos”, mas raramente estudam “O Livro dos Médiuns” e outros que fazem parte do conjunto de 19 livros que constituem o entendimento das idéias de Kardec.

É exatamente o freqüentador ou, talvez, trabalhador desse modelo de espiritismo que se acha preparado para fundar um novo centro espírita.

Não vamos entrar em detalhes sobre isto não, porque já entrei em outro artigo anterior, vamos abordar apenas a questão do mentor da casa que é o foco deste artigo.



Quem é o mentor da casa?



Ninguém sabe. Só sabe que é um espírito “bom”.

Se um espírito chega saudando as pessoas com o famoso “Que a Paz de Jesus esteja com todos”, invariavelmente é muito bem recebido. Até aí tudo bem, porque todos os espíritos devem ser bem recebidos.

Mas já se cria logo uma simpatia, por causa da sua saudação.

Aí esse espírito passa a vir com regularidade, toma o médium toda semana e sempre transmite alguma mensagem, que os freqüentadores da casa acham lindas.

Pronto, virou mentor da casa!

Nós sabemos quem foi o Dr. Bezerra de Menezes, sabemos quem foi a Joanna de Ângelis, que foi a Sóror Joana Angélica e outras suas encarnações; sabemos que Emmanuel foi o padre Manoel de Nóbrega e outras suas encarnações e sabemos que o André Luiz foi o Faustino Esposel, embora alguns imaginam e admitem que ele tenha sido Carlos Chagas ou até Oswaldo Cruz.

Por acaso, você sabe quem o mentor do seu centro foi em alguma encarnação passada? Conhece pelo menos o histórico dele na última encarnação? A maioria não sabe.

Este problema é sério ou não tem relevância nenhuma?

Observe bem a importância disto:

O mentor da casa é o espírito mais ouvido pelos seus participantes e dirigentes. O que ele diz passa a ser lei na casa e, por isto, é muito comum a gente ouvir coisas do tipo:

- “É orientação do mentor da casa”.

- “Fazemos desse jeito, porque recebemos orientação do mentor da casa”.

- “Sentimos muito, mas não podemos adotar isso, porque o mentor da casa não admite”.

E por aí vai.

E Allan Kardec, onde é que fica?

Nessa onda, muitos procedimentos incoerentes, absurdos e até ridículos acontecem em muitos centros espíritos, absolutamente incompatíveis com aquilo que Kardec ensinou e praticou durante a sua vivência espírita:

Reunião em torno de uma mesa, exigência de uma toalha branca forrando essa mesa, exigência da roupa branca para a mediúnica, invenção da velha plaquinha “O Silêncio é uma prece”, falem baixo no centro, proibição de músicas, de flores e de um monte de coisas. Proibição de aplausos e de elogios, rigor excessivo quanto a horários, exigência de roupas em cores chamadas sóbrias, ambiente lúgubre nas mediúnicas, restrições ao sorriso, palmas das mãos voltadas para cima na hora do passe, tirar os sapatos para tomar passe, ojeriza ao dinheiro, mania de exigir que dêem de graça até mesmo coisas que não são recebidas de graça, recomendação para fingir que é pobre, fingir que é humilde e fingir para os outras que, por ser espírita, já atingiu evolução, etc. etc. etc.

Há também a proibição de eventos festivos no salão do centro, mesmo por necessidades urgentes de busca por recursos financeiros para a casa, sob o absurdo argumento de que fazer festa no local baixa o padrão vibratório da casa.

Gente, vamos raciocinar: O mentor de um centro espírita que deixa cair o padrão vibratório da casa pelo fato das pessoas estarem felizes e trabalhando para a sua própria manutenção é um despreparado, um insensato e inconseqüente que deve ser demitido pela diretoria, por não ter condição de ser mentor de coisa alguma. Precisa se reciclar.



Vamos questionar sobre o mentor



Primeiro – O fato de um espírito chegar a um centro espírita pronunciando a frase“que a paz de Jesus esteja com todos” não quer dizer necessariamente que seja espírito evoluído.

Segundo – O fato de um espírito se comunicar numa mediúnica não quer dizer que seja um espírito espírita.

Terceiro – Ainda que seja um espírito que, quando encarnado, fora dirigente de centro espírita, não quer dizer também que seja necessariamente conhecedor do Espiritismo.

Quarto – Espírito que foi padre ou freira em encarnações passadas, por mais que manifeste carinho e dedicação para com o Espiritismo e até bons ensinamentos, poderá também trazer idéias católicas da sua cultura, o que não quer dizer que estejam todas em compatibilidade com o Espiritismo. Exemplo disto é a prática do sexo só para procriação e a cultura de imoralização do sexo.

Quinto – Imposições e determinações que alguns mentores fazem, não são atitudes de espíritos elevados, porque espírito elevado numa impõe nem determina nada.

Sexto – Se aborrecer quando questionado pelos trabalhadores da casa, assim como pela não obediência total àquilo que ele quer, não é característica de espírito elevado.



Toda instituição espírita deve rever os seus conceitos acerca dessa figura que foi instituída como “mentor da casa”. Deve, sim, questionar esse espírito, deve procurar saber quem ele foi e parar com essa conversa de que não há necessidade nenhuma de identificar os espíritos. Em algumas situações não temos necessidade de identificar os espíritos, mas isto apenas em ALGUMAS situações e não em todas as situações.

Que tipo de coerência temos nós em conviver durante anos com uma pessoa, sem ao menos saber quem é de quem se trata?

Se não admitimos isto nas convivências com encarnados, por que vamos ter que admitir em relação a desencarnados?

Precisamos, sim, conversar com os espíritos, procurar saber quem eles são, quais são os seus conhecimentos em relação AO ESPIRITISMO e isto não está errado e nem é anti doutrinário.

Sei que muita gente não vai poder fazer isto porque nos seus centros não há tempo para conversar com os espíritos já que o tempo total é destinado a atender espíritos problemáticos e revoltados; mas outros centros podem fazer isto, sim, porque dão espaço para os espíritos amigos falarem a vontade e devem fazer.

Com certeza, espíritos que são verdadeiramente elevados terão o maior prazer em prestar todas as informações que a equipe lhes pedir e nenhum deles se aborrecerá ou demonstrará qualquer tipo de má vontade em relação ao procedimento. Podem ter certeza disto.

Se o mentor se aborrecer, pode mandá-lo passar no departamento de pessoal e receber as suas contas, que ele está demitido. Se quiser reclamar direitos na justiça do trabalho, que vá!



Conscientização espírita mais racional



Precisamos disto, amigos. Chega de espíritas bobos e indisponíveis à racionalidade. Chega de tanta besteira na prática espírita, chega de mesmismo.

Esse negócio de santificar mentor é uma das maiores bobagens que se pratica no meio espírita, considerar mentor com palavra final da casa e não questionável é sinal de limitação da inteligência dos trabalhadores e dirigentes.

A base é Kardec, portanto, qualquer recomendação de mentor, principalmente quando ordem ou imposição, deve ser rigorosamente levada ao crivo de Kardec, pra saber se vai ser ou não ser acatada.

Abração.



Alamar Régis Carvalho